terça-feira, 13 de fevereiro de 2018



Era um mundo muito grande e cheio de gente. 
Agora é pequeno e nele só cabe um.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O fracasso me trouxe até onde estou e isso é maravilhoso.


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(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Cada um carrega seu segredo jamais revelado.


Eu nunca vivi mais de dez anos na mesma casa. Tenho cinquenta e um anos de idade. Tem gente que mora, no máximo, no segundo endereço, e é mais velha que eu... frequenta a mesma praia, da mesma cidade, a mesma igreja, o clube de sempre. ​Usa o mesmo estilo de roupa, tem os mesmos amigos de sempre... isso é bom, mas, no meu caso, que, desde o nascimento, não paro, é um pouco difícil, claro, eu já tentei, cartas e mais cartas, atualmente, e-mails... mas a falta de contato esfria qualquer amor. 

Não sou volúvel. Estou casada com o mesmo homem há mais de duas décadas. Tive o mesmo cabeleireiro por vinte anos, tenho o mesmo médico angiologista, desde os meus trinta e quatro anos de idade, embora eu more há nove anos fora do Brasil. Eu também não me desagrado das coisas e por isso, mudo. Meu último endereço no Brasil foi o melhor que tive em toda a minha vida. Fui feliz e desinfeliz lá, vivi, eu, que me mudava de dois em dois anos, morei nesse lugar por seis anos. Faz pouco tempo que parei de relembrar, de molhar meus olhos por me lembrar... mesmo assim, quando vou a Belo Horizonte, paro o carro em frente ao prédio e choro.

Tenho bolsa de festa que pertenceu à minha tia-avó em sua juventude. Tenho casacos que comprei na casa dos trinta anos. Quase tudo que ganhei de presente de casamento, eu tenho até hoje.

Mas, em nove anos de Estados Unidos, estou em meu quarto endereço. Eu realmente não paro. Não sei se é sina, se é mania, não sei se são sonhos em demasia... Na mesma cidade, passei, em seis anos, por quatro academias de Jiu Jitsu. O último proprietário e professor disse que a gente só para quando está satisfeito. Pode ser isso. Pode não ser.

Eu as vejo, essas pessoas que se estacionaram faz tempo, eu as vejo como se eu estivesse dentro de uma bolha e elas não. Isso soa estranho. São elas que vivem em bolhas, nos mesmos círculos! Talvez, seja o movimento da bolha que faz a diferença... A minha bolha alaranjada, sim, ela é colorida, ela rola comigo dentro, e, dentro, eu também rolo. Há um brinquedo assim. Você entra em uma bola de plástico, gigante, transparente, e rola em uma lagoa preparada para isso. Penso que a minha bolha não patina em terreno preparado, ele é 'para preparo', "obras à vista", só pode ser.

Cada um carrega seu segredo jamais revelado. Esse é o meu. Desisti das respostas, mais ainda das perguntas.

Entretanto, apesar da existência mutável, eu permaneci quase a mesma, até dois ou três anos atrás.

Hoje, convivo com meu novo 'eu' como se tomasse chá, num fim de tarde, olhando-me, a nova se olhando, entendeu? A nova olhando a nova, a que tomou o lugar da velha que se foi, não existe mais. É um processo fantástico de descoberta. Talvez, agora, a bolha alaranjada esteja em águas seguras e cristalinas. Há um quê de cristalino em toda pessoa nova, não importando a idade.


Por Suzana Guimarães




Crônica originalmente publicada em: clica aqui e no Facebook

terça-feira, 16 de janeiro de 2018


Ela disse que vai ter uma rede (para balançar) quando se aposentar. Eu nem respondi. Fingi que não ouvi. Viver é arte difícil, fazer planos é que é fácil. Detesto lista de planos. Detesto o uso indevido da frase "Eu te amo". Detesto muita coisa, mas eu não vim falar disso. Então, ela disse que terá uma rede na casa dela quando ela se aposentar. 

Eu deveria rir disso. Bom, estou rindo agora. Lembrei-me desse fato porque fui à varanda pendurar a minha rede que acabei de tirar da secadora de roupas. Viver é arte difícil, fazer planos é que é fácil. Morar na praia, ter uma casa de campo, ter piscina no quintal... Eu tenho tudo isso, a rede, a praia, a casa de campo e a piscina no quintal (do condomínio, mas pertence a mim também, claro!), então eu sei do que estou falando. 

Eu só não tenho aposentadoria. Eu nunca pensei nisso, soa ruim, parece aposentar a vida. E eu não tenho planos, nem falo "Eu te amo" por falar. Não se trata também de frase sagrada e imortal; eu já deixei de amar algumas vezes, e de falar.

Quando eu me "aposentar", eu quero o que já tenho, pessoa para eu rir junto, com vontade, incontrolavelmente; para desligar a música ou o jogo somente para me ouvir, por desejar me ouvir mais ainda ou se cansar e dizer que se cansou, que eu sou uma chata, mas que sou bonitinha demais, apesar de chata e brava. Pessoa disponível ao toque, ao abraço, sempre disposta a sentar-se à mesa para me acompanhar na refeição mesmo que não coma nada. Pessoa que parece sempre tempo bom, céu claro, dia azul, descanso, rede, mar, um prado com uma única casa... E nos momentos ruins, quando o dia se fecha de escuro e fúria, que seja silêncio. 

Ela disse que vai ter uma rede quando se aposentar e eu deveria ter dito alguma coisa, mas a vida é uma caixa de remédio personalizada, cuja bula, também personalizada, não pode ser lida por outros olhos. Talvez, por exemplo, o que é rede para mim é aquisição que dá trabalho para ela.


Suzana Guimarães



sexta-feira, 12 de janeiro de 2018



Planejo para desmanchar na próxima hora.
Permito-me
Assim como os céus se permitem
Não se fizeram chuvas, nem sóis, nem nada
E a vida continua
Desenredo-me
Sem remorso, sem dor
Planejo para desmontar-me à frente
Essa condição humana é redenção
Ninguém fará dança por mim
Não estraguei a colheita
Sou apenas gente
E desmonto-me.



Suzana Guimarães

domingo, 31 de dezembro de 2017

(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)


Passei por uma batalha e não tinha seis comigo.
Acordo agora renovada e forte
Bem mais do que já fui.
Digo hoje que estou sempre preparada
E isso pode soar exagero
Mas eu passei por uma batalha
E não tinha seis comigo.


Suzana Guimarães 

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017


Eu mudei muito. Se me perguntarem se aquele vídeo foi feito no Brasil, eu vou dizer que não sei onde é. Apesar de que, por aqui, pessoa alguma pergunta sobre ninguém mais que jogador de futebol. Eles sabem os nomes até dos antigos. Quando falam das mulheres brasileiras, referem-se de forma geral às bundas "naqueles" biquínis, nas praias. Como brasileira, eu sinto constrangimento por perceber que parece que é só isso mesmo, futebol e bunda feminina, e não é, mulher do ano no Brasil é a professora que, para salvar crianças, morreu queimada.
Já li até sobre glamourização da favela naquele vídeo. Pode existir poesia numa favela, glamour nunca haverá. Eu tenho 51 anos, desde os quatro ou cinco, a minha família e eu subíamos o morro da favela da nossa cidade para visitar algumas pessoas que lá viviam. Nunca vi glamour.
Se gostam tanto das favelas, deveriam morar lá. A grande maioria vive oprimida. A grande maioria quer uma chance de prosperidade ou pelo menos de paz e segurança.
O show de bundas não irá melhorar nada, apenas as contas bancárias dos idealizadores.
Se perguntarem para mim de quem se trata... não, isso eu já sei, não irão perguntar nada.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017


"?
...onde caberíamos
se não coubéssemos tanto..."

(al2r)

Andre Luis Ribeiro Rodrigues

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017


"(...) Porque as pessoas desistem do que dói."

Solange Maia

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Sobre 2017


Ninguém gostou de 2016; eu gostei.
Ninguém parece ter gostado de 2017; eu vi nele o melhor de todos os meus anos porque foi conta justa. Intenso, forte e enigmático... pena que se vai...

Seria ingratidão demais me deter nas subtrações se houve muitas adições. Ganhei presentes, fui assistida. Recebi muito, não apenas perdi. Não dá para ser eterna fominha. Não existe aquela coisa de sempre ganhar. Não existe super-herói nenhum.

Dizem que doença é fruto de nossos pensamentos, do nosso bem ou mal querer. Dizem que se tivermos somente muito amor no coração seremos saudáveis, sadios. Isso me faz rir. É tolice demais. Dizem muito, mas não explicam as doenças nas crianças, nos bebês. A alma e a mente funcionam, claro, na cura.
Às vezes, eu reclamo. Isso é bom, muito bom para a saúde.
Dezembro, 2

quarta-feira, 29 de novembro de 2017




                                        Nem tudo é culpa de Deus, aqui é terra dos Homens.




segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Enquanto noite


O precipício e a mulher dormem. É noite, reina o silêncio e no limite fronteiriço, o corpo em sono. O abismo, verdejante, triunfante, mudo... convida, seduz, mas ela dorme. É noite, reinam solitários os dois.

Se a mulher se mover, serão um só, mas ela não se mexe. Mexe a alma que se ergue e se solta, caminha. 

Sê graciosa assim, para consigo...

Sê gentil para consigo

Puxa a manta, a alma puxa a manta branca

Vem para dentro, mulher, seu destino pode esperar; ele ainda dorme.


Suzana C. Guimarães 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

​Aproveitei as recusas da vida para apreciar meus ganhos.


​Aproveitei as recusas da vida para apreciar meus ganhos.
Não houve muito tempo para mim, ou melhor, houve, mas eu sou de ânsias e vontades, sou de criações, e, por isso, estive mergulhada, criando dois filhos, fazendo e desfazendo amor e vivenciando meus endereços. 

Tenho tempo agora para olhar as coisas e as pessoas que passam... eu tinha o meu, para ser precisa, era o nada, ocorria sempre que eu escapava, claro, eu escapava, mas isso sempre foi esporádico. Sei abstrair o olhar e soltar-me desse mundo de estares e fazeres.

Mas agora posso experimentar, da forma mais primitiva possível, como se degustasse um alimento bom. Vejo coisas e pessoas, principalmente as coisas, vendo. Comprei uma torta de frango após um dia com agenda cheia. Essa compra foi um brinde, já que eu estava muito cansada para ainda passar em um supermercado. Em casa, todos a receberam com brilho nos olhos; e, coincidentemente era dia de comemoração. Hoje, mais cedo, uma mulher segurou a porta do elevador para mim - e eu nem estava fazendo questão -, falou palavras boas, traduzidas em bom dia, boa tarde, qual o seu andar e tenha um dia bom. 

Excelente! ​Deixei de lado o sonho dos grandes mergulhos. Fixo-me no momento presente dessa respiração, mesmo que imbuída de sonhos - descobri que eles foram meu oxigênio, minha salvação, então, sonho, mas sonho meio que acordada, parecendo aqueles cochilos de meio de tarde, quando não podemos de forma alguma puxar a coberta, o travesseiro e adormecer.
Não me pergunte nada sobre o futuro, o que é isso? Não me relembre o passado, hoje sou só amor para comigo mesma...



Errei mais que acertei. Acreditei muito, esse foi meu carrasco, esse jeito bobo de colocar fé e força no outro. Porém, não me arrependo, hoje, posso, calmamente observar a vida por sob o prisma de uma loja de cristais, tudo bastante lindo e desejável, mas nem tudo para mim. Descobrir que não posso realmente todas as coisas liberta-me. Posso uma coisa só, com certeza: sentar-me e deliciar-me com o sorvete que saboreio enquanto escorre pelas minhas mãos. ​



Suzana Guimarães


Nota: Texto publicado originalmente aqui.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Toda a vida poderia ter sido hoje.


(Imagem: Isabel Maciel)


No meio da tarde, um presente!

Mais cedo, eu fui feliz, logo depois, nem tanto. Tenho hoje algo para recordar, como se fosse aniversário de formatura ou casamento. Tenho também alguma dor e preocupação, mas tudo passa, e isso passará.

No meio do meu caos pessoal, esta fotografia da Isabel Maciel.

É o trecho de uma crônica do meu livro dOloreS. Meu filho que soltei no mundo, com minhas digitais, meu histórico; uma foto de mim em palavras. Foi há um certo tempo, mas poderia ter sido hoje.

Toda a vida poderia ter sido hoje.



Suzana Guimarães.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Mais fácil falar de mim


​Mais fácil falar de mim; falar dos outros é complicado. Na maioria das vezes, a gente erra. Em outras, a gente acerta, mas eu me pergunto se isso tem serventia... De vez em quando, eu xingo, falo mal, reclamo, mas isso não torna o fato interessante. Falar dos outros é desinteressante.

​Então, eu falo de mim. Para não gritar. Para não surtar! Uma lástima esta vida; gasto meses, anos, horas que somadas fecham um longo tempo da minha vida... ah, já gastei dinheiro também. Já fiz determinados esportes, visando o mesmo fim. Já tomei chás e tentei inspirar e expirar fundo; também já tentei o contrário, soltando pequenos golpes de ar... tudo para manter um equilíbrio distante, um conformismo feliz.

​Semanas atrás, acreditei ter alcançado, enfim, a minha plenitude. Sim, minha, aquela que a mim seria só satisfação - sou chata, conjugo o verbo na primeira pessoa do singular, tudo eu, nada de nós, tem gente que adora conversar comigo no plural, "nós", detesto isso, não estou falando de sociedade, de conta no banco, de empreendimento; estou falando de mim, bem egoísta mesmo!

Então, um tempo atrás, eu acreditei no meu "nirvana". Não sou tola, sei que teria tempo curto de vida, mas isso não é a questão que me trouxe aqui.

​A questão que me trouxe é a sensação de desvario, de estar dentro da onda e nada poder fazer querendo fazer tudo, mergulhar, nadar, boiar, afundar, soltar, prender, correr, levitar e gozar... haveria vida para um bêbado em pleno mar revolto?

Mas eu não bebi, ou bebi?
Mas não vi mar, ou vi?

Eu estava em casa, a campainha tocou e eu fui abrir a porta, só isso, despreocupadamente. Eu sempre soube que todos os segredos estavam contidos nos atos praticados de forma despreocupada...


Suzana Guimarães​

(Suzana Guimarães)

sábado, 9 de setembro de 2017

Brincando com Deus


Horas depois, encostei a cabeça na porta de vidro que se abre para a varanda. Olhar bem adiante, o horizonte em tom rosa, as palmeiras e os pinheiros alheios, distantes, ignorantes de mim, refrescaria a loucura de Deus, brincando comigo de esconde-esconde... Um simples gesto meu, o deslizar da mão para desencobrir foi revelador. 

​Deus é divertido, mas é preciso ter bom humor. Ele costuma brincar com quem brinca com ele. Eu sou aquela que convida, que pede, que promete não deixar a brincadeira antes dela terminar.

Sou forte, Deus, divertida e crente. Volta para o jogo, pois eu quero muito continuar.


Suzana Guimarães​

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Meu amor longe de mim



Meu amor está longe de mim. É muito chão, é muito ar, é muita solidão. Distância palpável, pois meu coração parece oscilar. Tenho medo de respirar profundo tenho medo de respirar pequeno tenho um mundo de medo. Todos os olhos assaltam-me porque meu amor está longe de mim. Evito. Não penso. Desvio a rota. Sou alma suspensa... esperando meu amor voltar.

Meu amor está longe de mim e eu sou só até ele regressar. Não conto o tempo. Não conto aos outros. Embalo-o. Guardo-o. Sou os olhos do mundo, sou todos os caminhos. Sou a sombra para ele poder passar. E voltar.

Agosto, 15.


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(Desenho por Ana Luísa Meneghini)